2 de outubro de 2008

Projectos on-line... eis a questão!

A sociedade actual incentiva a possibilidade de comprar "à-distância", seja por catálogo, pela TV ou pela Internet. Sendo que, na maioria das vezes, essas vendas dizem respeito a produtos "pronto a usar".

Todos sabemos que essa possibilidade têm vantagens como, por exemplo, preços mais baixos, maior comodidade, maior rapidez, etc. Mas, também possui, como é óbvio, algumas desvantagens como, por exemplo, a dificuldade em avaliar a qualidade do produto (antes da compra), o potencial para a burla, etc.

A minha questão fulcral é: Será benéfico, para os clientes, aplicar estes dois conceitos - "pronto a usar" e "venda-à-distância" ao design?



Esta questão surgiu-me depois de ter tido conhecimento que existem empresas, no mercado, que realizam projectos à distância, integralmente via Internet. Nomeadamente, projectos de ambientes interiores e de arquitectura. Segundo pude verificar, por cerca de 200,00€, qualquer pessoa pode comprar um projecto para remodelar a sua sala, quarto, cozinha, etc.

A dúvida é se, o que se compra/vende, por este processo, corresponde a um projecto de design?...

Esta dúvida nada tem que ver com a qualidade/habilitações dos especialistas envolvidos. Nem estou, tão pouco, a insinuar que tais empresas sejam desonestas. Não é por aí... A minha dúvida tem que ver com o facto de, como profissional, encontrar demasiados pontos fracos neste tipo de serviço:

# Preços irreais (demasiado baixos) para o trabalho especializado implicado;
# Inexistência de contacto directo com cliente/local da intervenção;
# Informações e detalhes trocados por escrito (eventuais conversas telefónicas);
# Soluções propostas em apenas 2 opções/alternativas, sem possibilidade de discussão;
etc...

Começando pelo preço...
Como se consegue fazer um projecto, com qualidade, por um preço tão baixo?

Na minha opinião não se consegue, a não ser que se venda uma "espécie" de projecto, que seja uma solução tipo "pronto-a-vestir", disfarçada de projecto costumizado. Aí sim, talvez até se possa vender, esses pseudo-projectos, por menos dinheiro. Afinal de contas, estamos a falar de matrizes, à laia de receitas, que se podem aplicar em centenas de casos, fazendo mudanças mínimas. Um bom especialista, com bom domínio de ferramentas de modelação 3D, faz isso de olhos fechados, numa tarde. Para além do mais, estabelecendo contactos com revendedores de materiais de construção e mobiliário, haverá sempre umas comissões extra a facturar...

Quanto à inexistência de contactos pessoais, entre cliente-designer e troca de informação à distância...
Como se consegue iniciar um projecto sem ter informação necessária/suficente?

Os detalhes, necessários ao projecto, são enviados pelos clientes (por e-mail). É certo que podem enviar plantas, com medidas, fotos, etc. Mas, que qualidade/rigor terá essa informação? Recordo que não são poucas as dificuldades que muitas pessoas têm em se expressar por escrito. Inclusivamente, muitas, nem falando conseguem ter um discurso organizado... Este procedimento é totalmente antagónico com as sugestões da ergonomia e do Design-Centrado-no-Utilizador.

Terminando com, apenas, 2 soluções alternativas...
Como se consegue um ajuste, com relativa qualidade, entre as necessidades do cliente e as propostas, de uma forma tão eficaz?

Resposta é dada nas entrelinhas, pelos próprios prestadores de serviço: "A Consultoria do ....... não visa a elaboração de quaisquer projectos ou estudos aprofundados. As respostas elaboradas pelos nossos arquitectos e colaboradores são de natureza estritamente informativa e nunca substituem a consulta directa a um arquitecto."... Mais palavras para quê?!?!...

Perante esta reflexão, ligeira (fica muito por dizer), gostava de saber o que vocês pensam sobre o conceito de design feito à distância. Para isso, peço que respondam, sff, à nossa pequena sondagem (na barra lateral) e submetam os vossos comentários...

Mais tarde, na posse dos dados, voltaremos a este assunto.
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3 comentários:

joserra disse...

Compra por 200,00E ? Tanto!!! a Ikea oferece! Tem um planificador de cozinhas 2D e 3D com cálculo de preços imediato.
Nós Designers temos que nos adaptar e propor soluções como esta às empresas. Mas isto não vem nos manuais, nem em nenhuma licenciatura que eu conheça. Temos que estudar mais o mercado e o modo como nos adaptar a esta economia onde valores que para nós são pilares como a experiência e a formação cada vez parecem valer menos para os clientes. O que vale neste momento é a ideia, a sua imediata formulação e venda.

Parabéns pelo Blog! Está excelente subscrevo muito do que aqui está escrito! E identifico-me bastante com a linha de pensamento de Atom Ant.

Atom Ant disse...

Caro José, obrigada pelo seu comentário e pela avaliação positiva que fez ao blog.

Quanto ao problema discutido neste "post", não creio que seja boa estratégia aderir a estas novas formas de vender "projectos". No meu ponto de vista, isso não corresponde, de todo, ao que eu entendo por design... No entanto, aceito que exista lugar, no mercado, para essas opções. Já não aceito, com tanta facilidade, que isso seja rotulado como design.

O exemplo que deu, dos simuladores das empresas de mobiliário, gratuitos, são apenas sistemas que facilitam a visualização de um layout. Não são sistemas inteligentes que digam, ao cliente, se a sua simulação está certa ou errada... Por isso são gratuitos ;)

joserra disse...

Cara Atom Ant, claro que concordo consigo, mais uma vez. A solução apresentada em nada contribui para um bom design (nem tal lhe podemos chamar) de uma cozinha. É apenas um desenho de uma cozinha.

Neste caso só estou mesmo a referir-me ao conceito, usabilidade e grafismos simples e funcionais usados no software referido. A facilidade com que pegamos nos objectos e os colocamos onde desejamos.

Como designer, receio esta facilidade com que a informática banaliza o acto projectual, no entanto como designer de interfaces não deixo de ficar surpreendido com as portas que (a informática) me abre.

Ler: "How To Be a Graphic Designer Without Losing Your Soul"


Obrigado! Jorge.