3 de Junho de 2008

Dificuldades para Deficientes



Não é a primeira vez nem será, infelizmente, a última em que falaremos sobre a FALTA de Acessibilidade em Portugal,
neste blog. Estranhamente, apesar de toda a boa legislação em vigor, nada parece mudar, a este respeito, nas terras Lusas. É inacreditável como estações de transportes públicos, restaurantes, escolas, hospitais e museus, entre muitos outros espaços, nos confrontam com obstáculos arquitectónicos inultrapassáveis.

Sobre este assunto, Clara Ferreira Alves escreveu um artigo intitulado "Dificuldades para Deficientes", publicado no Expresso on-line no dia 12 de Maio de 2008.

Aqui ficam alguns excertos...


(...) "Recomendei-lhes que não perdessem o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), que é um dos museus mais extraordinários do mundo, rodeado daquele belo jardim e daquele rio azul, sentindo numa tarde de Primavera a brisa que sopra do Tejo e o cheiro das árvores e das flores. E, claro, recomendei-lhes os muitos sítios que quem mora numa cidade recomenda aos estrangeiros. E, claro, esqueci-me que Lisboa tem um problema, tem vários problemas. No que diz respeito a Boaz e Shirley, Lisboa vira-lhes as costas e nega-lhes oportunidades que concede a outros. Lisboa descrimina-os. Porquê? Boaz está numa cadeira de rodas".


(...) "Foram a um lugar perto do castelo de São Jorge para ver arte, e não puderam entrar. O Bairro Alto é inegociável, e com o Bairro Alto vão na leva os restaurantes do bairro, incluindo um que lhes recomendei particularmente como sendo o da melhor comida portuguesa."


(...) "Lisboa (e o Porto, e outras cidades portuguesas) torna-se difícil, impossível, para velhos e aleijados. Apesar das fórmulas politicamente correctas com que cobrimos estes estados de vida, o da velhice e o da incapacidade, não cobrimos a cidade de "facilidades para deficientes" nem para incapacitados, seja pela idade, a doença ou o acidente. "


(...) "Sem asas nos pés, o tempo entre a luz verde e a vermelha para os peões é curtíssimo, e os carros parecem um bando de animais deitando fumo e escavando no chão antes da investida. Muda o sinal e fica-se entalado a meio da Avenida entre dois sentidos, com as tangentes dos automóveis e os insultos dos automobilistas portugueses que, como toda a gente sabe, não são um modelo de cortesia."


(...)"A juntar ao domínio dos carros sobre as pessoas na cidade, temos as colinas e as calçadas portuguesas em altos e baixos, com pedras descalçadas, montinhos de brita, pilões de aço e carros estacionados, episódios vários de incúria e repressão que dificultam a passagem das pernas lentas e das cadeiras de rodas. Os velhos têm medo de atravessar as ruas, e têm pânico de cair. Junte-se ainda a inexistência de transportes especiais para deficientes, de táxis especiais para deficientes (que poderiam e deveriam existir) e de rampas e acessos nos edifícios e lugares públicos. A cadeira de rodas, em Portugal, e a deficiência, são uma condenação ao imobilismo, à solidão, ou ao internamento em instituições especiais. São também uma condenação à pobreza ou à pedincha quando se trata de gente sem recursos, ou incapacitada pelas centenas de acidentes de trabalho por falta de segurança, que as companhias seguradoras ignoram e tratam como dispensáveis, recompensando a perda das pernas ou dos braços, da visão ou da audição, ou de qualquer parte do corpo, com montantes irrisórios. A vida de um deficiente pobre vale muito pouco, se for um trabalhador imigrado estrangeiro vale nada. A família que cuide dele, é a racionalidade dominante. "Teve azar, coitado" é o comentário piedoso."(...)

Que mais posso eu acrescentar a estas palavras?!?!....
Há ainda muito por fazer... parece é não haver vontade... :P

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