20 de junho de 2007

Ver sem ver

Graças ao poder da nossa mente podemos ver um objecto sem que o estejamos a ver realmente, ou seja, podemos vê-lo com os “olhos da mente”, na ausência de qualquer estímulo sensorial. Na realidade, o que estamos a ver são imagens mentais imaginárias. As imagens mentais são uma questão enquadrada na temática representação do conhecimento na mente, isto é, a forma como a informação é processada após ter sido percepcionada e ter entrado no sistema cognitivo. Do ponto de vista do design, o interesse por esta questão reside, essencialmente, no facto de este processo de representação poder afectar o desempenho cognitivo humano. É, contudo, um assunto polémico entre os investigadores e, actualmente, ainda não há consenso acerca das explicações para esta capacidade de gerar imagens mentais.

Sabemos, genericamente, que existem dois grandes tipos de representações do conhecimento, as representações baseadas na percepção e as baseadas no significado. Estas últimas, bastante abstraídas dos detalhes perceptivos e focadas no significado da experiência. Neste post irei focar a questão da representação baseada na percepção, particularmente, as imagens mentais. Para Kosslyn (1995), a função deste imaginário perceptivo é preparar-nos para processar estímulos perceptivos externos, com os quais iremos interagir no futuro. Mas, que imagens mentais são estas? Teremos, na nossa mente, um banco de imagens que pode ser consultado sempre que quisermos, ou, as imagens são representadas alegoricamente na nossa mente? A primeira hipótese afigura-se algo irrealista, enquanto que segunda parece ser mais razoável. Sobre esta questão podemos encontrar 3 hipóteses distintas:

1) hipótese dual: segundo a qual existem 2 códigos e dois sistemas de armazenamento, um verbal e outro para imagens, onde a informação podem ser codificada e armazenada (Paivio, 1965). Segundo esta hipótese, a nossa memória funcionará melhor se codificarmos a informação de ambas as formas, verbal e visual. Na realidade, a memória para o material verbal é mais eficaz quando foi desenvolvida uma imagem correspondente a esse material. Veja-se o caso das mnemónicas segundo o método de Loci (mnemónica de lugares ou de imagens).

2) hipótese conceptual-proposicional: segundo a qual a informação verbal e visual são representadas na forma de proposições abstractas sobre os sujeitos e as suas relações (Anderson & Bowell, 1973; Pylyshyn, 1973). Neste caso, o que é armazenado é uma interpretação de um acontecimento e não a sua imagem. Isto porque não é viável supor que a nossa memória funciona como uma álbum de fotos. Isso implicaria uma capacidade de memória superior à que possuímos e também implicaria a existência de um qualquer mecanismo de gestão desse banco de imagens.

3) hipótese da equivalência funcional: segundo a qual as imagens mentais e a percepção visual são funcionalmente equivalentes (Shepard e Kosslyn). Um dos exemplos que tem sido mais popular, no suporte desta teoria, é a rotação mental de imagens.

Shepard e seus colegas pediram a diversos sujeitos que determinassem se as formas seguintes eram iguais entre si, par a par.

Os ângulos de rotação entre as imagens variaram entre 0 e 180º. A variável dependente monitorizada foi o tempo de resposta. No exemplo aqui ilustrado, os pares 1 e 2 são compostos por peças idênticas, com rotação de 80º, no primeiro caso uma rotação a 2D e no 2º a 3D. O 3º par não é composto por formas idênticas entre si. Os resultados revelaram que existe uma relação linear entre o tempo de reposta e o aumento do ângulo de rotação. Não houve diferenças significativas entre a rotação a 2D e a 3D. Ou seja, quanto maior a rotação mais tempo demoraram a responder (cerca de 1 segundo por cada 50º de rotação). Quando inquiridos os participantes, todos declararam ter rodado mentalmente as peças até encontrar a resposta. Estudos neurológicos posteriores revelaram evidências sobre este processo de rotação mental. Encontraram, inclusivamente, uma ligação entre a rotação mental de imagens e o córtex motor. Isto indica que esta capacidade é usada para a preparação de movimentos. Contudo, a rotação mental das imagens não é a única característica comum entre imagens mentais e percepcionadas. Ambas as imagens, as percepcionadas e as imaginadas, podem conter propriedades espaciais e visuais. Portanto, ao serem examinadas, demoraremos mais tempo a avaliar grande distâncias do que pequenas e, também, teremos mais dificuldades em observar detalhes em imagens pequenas do que grandes, sejam elas de que tipo forem.

Contudo, muito embora sejam funcionalmente equivalentes, as imagens mentais possuem algumas limitações quando comparadas com as imagens percepcionadas. Por exemplo, é difícil fazer uma análise muito rigorosa de detalhes nas imagens mentais, isto porque, nem sempre elas possuem bastante realismo. Do ponto de vista dos recursos cognitivos, as imagens mentais são mais exigentes, essencialmente devido ao seu processamento descendente. Este facto é evidente se tomarmos como exemplo uma tarefa de pesquisa visual.

Perante estes dois cenários, se vos pedirem para declarar se o X está dentro ou fora da letra F, em qual deles terão mais dificuldade de responder? Obviamente que será mais complicado no caso onde a letra F tem que ser imaginada.

A capacidade de construir imagens mentais e manipulá-las é essencial em muitas actividades do quotidiano mas, também o é para o design. Porque, na sua essência, o trabalho do designer assenta grandemente nesta capacidade de gerar e manipular imagens mentais. Quantas vezes não temos já uma boa imagem do objecto a conceber, muito antes de haver qualquer esboço em papel? Ainda que, ás vezes, seja uma imagem algo difusa...

Mas, através da minha experiência enquanto docente num curso de design, posso afirmar que é impressionante como esta maravilhosa capacidade afecta a qualidade do trabalho dos alunos, futuros designers. Eu quase que me arriscaria a usá-la como critério de selecção… pois, quem não a possuir, em doses generosas, está, no meu entender, francamente limitado no seu desempenho enquanto designer.

Referências:

Anderson, J. R. & Bower, G. H. (1973). Human Associative Memory. Washington, DC: Winston.

Kosslyn, S. M. (1973). Scanning visual images: Some structural implications. Perception and Psychophysics, 14, 90-94.

Kosslyn, S. M. (1975).Information representation in visual images. Cognitive Psychology, 7, 341-370.

Kosslyn, S. M. (1995). Introduction. In M. S. Gazzaniga (Ed.) The cognitive neurosciences (pp.959-961). Cambridge, MA: The MIT Press.

Paivio (1965). Abstractness, imagery, and meaningfulness in paired-associated learning. Journal of Verbal Learning and Verbal Behaviour, 4, 32-38.

Pylyshyn, Z. W. (1973). What the mind’s eye tells the mind’s brain: A critique of mental imagery. Psychological Bulletin, 80, 1-24.

Shepard, R. N. (1977). The mental image. American Psychological Association Meeting, San Francisco, Sept.